SRC e os padrões de antiderrapantes para calçados de segurança

Descubra o que é o certificado SRC, como funciona o ensaio antiderrapante e quando essa certificação é essencial na escolha do calçado de segurança.

O que é O SRC segundo a norma

SRC não é um material, não é um desenho de solado e tampouco uma promessa genérica de segurança. Trata-se de uma classificação de desempenho antiderrapante, prevista nas normas EN ISO 20345, 20346 e 20347, adotadas no Brasil por meio das normas ABNT NBR ISO correspondentes.

Na prática, o SRC indica que o calçado foi submetido e aprovado em dois ensaios distintos de resistência ao escorregamento, realizados em laboratório:

  • SRA: ensaio em piso cerâmico contaminado com solução de detergente;
  • SRB: ensaio em piso de aço contaminado com glicerina.

Quando o solado atende aos coeficientes mínimos de atrito exigidos em ambos os ensaios, ele recebe a classificação SRC.

É importante destacar: o SRC não é um ensaio adicional “mais rigoroso”, mas a combinação de dois métodos específicos, cada um representando um tipo de superfície e contaminante padronizado.

Como funciona o ensaio antiderrapante SRC

Os ensaios são realizados com equipamentos específicos que simulam o contato do solado com a superfície em movimento controlado. O que se mede não é “se escorrega ou não”, mas o coeficiente de atrito dinâmico, em condições repetíveis e comparáveis.

O método prevê:

  • ângulo, velocidade e pressão padronizados;
  • superfícies novas e limpas;
  • contaminantes definidos pela norma;
  • corpos de prova em estado controlado.

Esse rigor é essencial para garantir comparabilidade entre produtos, mas também impõe um limite claro: o ensaio não reproduz a complexidade do ambiente real, onde entram variáveis como desgaste do solado, presença de resíduos orgânicos, variação de temperatura, pressão irregular do passo e microcontaminações.

É por isso que o SRC deve ser interpretado como base técnica mínima validada em laboratório, não como garantia absoluta de desempenho em qualquer cenário.

O que o SRC não mede

Aqui está um dos pontos mais críticos e menos discutidos quando se fala em SRC em calçado de segurança.

A norma não avalia:

  • desempenho do solado após desgaste prolongado;
  • comportamento em pisos irregulares ou contaminantes não normatizados;
  • interação entre desenho do solado e acúmulo de resíduos;
  • influência da flexibilidade do material ao longo da jornada.

Ou seja, dois calçados com SRC podem apresentar comportamentos completamente distintos no uso real, dependendo do material do solado, da geometria dos canais, da elasticidade do composto e da capacidade de dissipar contaminantes.

É exatamente nesse ponto que a leitura puramente normativa começa a se mostrar insuficiente.

O que os dados sobre escorregamento ajudam a revelar

Levantamentos da Fundacentro mostram que a maioria dos acidentes de trabalho analisados possui relação direta com as condições ambientais e operacionais. Em ambientes onde há presença recorrente de líquidos, resíduos ou superfícies lisas, esses fatores se tornam determinantes na ocorrência de quedas, o que torna a resistência ao escorregamento um critério técnico relevante na especificação de calçados de segurança. Esses registros reforçam um aspecto-chave: o risco não está apenas no piso, mas na interação entre superfície, contaminante e calçado.

Do ponto de vista técnico, o IBTeC (Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro, Calçado e Artefatos) contribui de forma decisiva ao validar, em laboratório, como diferentes materiais e desenhos de solado respondem aos ensaios normativos. Esses testes mostram que, mesmo dentro dos limites do SRC, há variações significativas de desempenho conforme:

  • o tipo de polímero utilizado;
  • a dureza do composto;
  • a capacidade de deformação controlada do solado.

Os dados ajudam a reforçar que cumprir a norma é o ponto de partida e não o ponto final da análise técnica.

SRC é sempre necessário?

Não. E essa é uma pergunta que deveria estar mais presente nos processos de especificação. O SRC é especialmente relevante em operações onde:

  • há contato frequente com superfícies lisas e contaminadas;
  • o risco de escorregamento está associado à dinâmica do processo produtivo;
  • o piso não pode ser facilmente modificado ou controlado.

Por outro lado, existem contextos em que outros fatores técnicos como isolamento térmico, resistência química, estabilidade estrutural ou absorção de impacto, têm peso equivalente ou até superior na escolha do calçado.

A decisão técnica madura não começa perguntando “tem SRC?”, mas sim qual é o risco predominante e como o solado responde a ele.

Materiais de solado e comportamento antiderrapante

Ao comparar diretamente diferentes materiais utilizados em solados, fica evidente que o desempenho antiderrapante não depende apenas da certificação.

  • PVC e blends de PVC apresentam boa previsibilidade de comportamento, especialmente quando há controle sobre flexibilidade e desenho dos canais.
  • Borracha nitrílica, comum em aplicações térmicas, tende a ter desempenho variável conforme a formulação.
  • Poliuretano (PU) pode oferecer conforto elevado, mas exige atenção redobrada à resistência ao escorregamento em ambientes contaminados.

É nessa interseção entre material, geometria e método de ensaio que surgem soluções projetadas para ir além do atendimento mínimo da norma, tema que dialoga diretamente com o desenvolvimento de solados aplicados a contextos específicos, como ocorre na Linha Grip.

Superar a norma é entender AS NECESSIDADES

Por fim, o SRC continua sendo uma referência técnica importante. Ele organiza critérios, cria parâmetros comparáveis e estabelece um patamar mínimo de segurança. A problemática não está na norma, está na leitura simplificada do que ela representa quando aplicada ao uso real.

Superar a norma não significa ignorá-la, mas compreendê-la profundamente: saber o que ela mede, como mede e, principalmente, o que ela deixa de fora.

É essa leitura crítica que permite transformar um selo em critério técnico e uma certificação em decisão consciente.

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